domingo, 29 de março de 2009

A Flor Azul


(Em função da publicação do livro Poemas Místico-Filosóficos e de sua futura continuação, pela Editora Biblioteca 24X7, este texto, assim como outros publicados neste blog, estará limitado a apenas uma introdução! Obrigado pelo apoio e incentivo, amigos leitores!!)

Em um reino bem próximo,
Mais próximo do que se imagina,
Havia uma triste garota
Que passava os dias em seu quarto a chorar.

Ela era uma princesa
Que todos diziam mimada,
Apenas porque não entendiam
Os motivos de seu lamentar.

O rei então instituiu um decreto:
Haveria uma festa na corte
Onde todos poderiam se apresentar,
Mostrando ao público o seu mais incrível talento.

Espalharam cartazes por toda a cidade,
Nos quais ofereciam moedas de ouro
Para quem conseguisse um sorriso
Dos magoados lábios da pequena princesa.

(...)

***

A flor azul

Hoje, faz todo o sentido partilhar aqui uma lenda portuguesa sobre um dos símbolos centrais da época do Romantismo - a flor azul. Para quem não sabe, "a flor azul não existe". E daí... O seu significado já vão perceber com a lenda que passo a contar:

"No Mosteiro da Cartuxa, no Buçaco, em Portugal, vivia, em séculos que já se foram, um piedoso e santo monge, cuja vida se consumia, inteira, entre a oração e as rosas. Jardineiro da alma e das flores, passava ele as manhãs de joelhos, no silêncio da nave, aos pés de um Cristo crucificado, e as tardes, no pequeno jardim da ordem, curvado diante das roseiras, que ele próprio plantava e regava.

A sua paciência de jardineiro era absorvida, entretanto, por uma idéia, que era um sonho: encontrar a rosa azul das lendas do Oriente, de que tivera notícia, uma noite, ao ler os poemas latinos dos velhos monges medievais.

Para isso, casava ele as sementes, os brotos, fundia os enxertos, combinando as terras, com que as cobria, e as águas, com que as regava, esperando, ansioso, o aparecimento, no topo da haste, do sonhado botão azul!

Ao fim de setenta anos de experiências e sonhos, em que se lhe misturavam na imaginação as chagas vermelhas de Cristo e as manchas celestes da sua rosa encantada, surgiu, afinal, no coroamento de um galho de roseira, um botão azul, como o céu.

Centenário e curvado, o velhinho não resistiu à emoção; adoeceu, e, conduzido à cela, ajoelhou-se diante do Crucificado, pedindo-lhe, entre soluços pungentes, que, como prêmio à santidade da sua vida, não lhe cerrasse os olhos sem que eles vissem, contentes, o desabrochar da sua rosa azul.

Em volta do santo velhinho, no catre do mosteiro, todos choravam, compungidos.

E foi, então, que, divulgada de boca em boca, foi a notícia ter a um convento das proximidades, onde jazia, orando e sonhando, uma linda infanta de Portugal. Moça e formosa, e, além de formosa e moça, - fidalga e portuguesa, compreendeu a pequenina freira, no jardim do seu sonho, o valor daquele desejo, e correu à sua cela, consumindo toda uma noite a fazer, com os seus dedos de neve, uma viçosa flor de seda azul, que perfumou, ela própria, com essência de gerânio.

E no dia seguinte, pela manhã, morria no seu catre, sorrindo entre lágrimas de alegria, por ter nas mãos trêmulas, por um milagre do céu, a sua rosa azul!"

A flor azul representa, assim, a luta metafísica pelo infinito e inalcançável, e sentimentos como a gratidão, o respeito, a admiração, a apreciação, o desejo e o amor (muitas vezes platônico).

As nossas mãos poderão nunca criar fisicamente uma flor azul, mas o nosso coração e a nossa alma podem fazer com que a flor azul exista, através de atitudes, pequenos gestos, sentimentos tão nobres quanto os que descrevi. Desde que não sejam tratados de forma banal...

(Felizmente, hoje já existe a Flor Azul!!)

Fonte da lenda acima:
http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20080819131704AA62Rt4

Fonte da bela fotografia:
http://br.olhares.com/flor_azul_foto1973596.html

domingo, 7 de setembro de 2008

A menina que falava com a luz


(Em função da publicação do livro Poemas Místico-Filosóficos, pela Editora Biblioteca 24X7, este texto, assim como outros publicados neste blog, estará limitado a apenas uma introdução! Obrigado pelo apoio e incentivo, amigos leitores!!)

Estrelas reluziam incandescentes
Namorando a luz do Sol
Mil borboletas florescentes
Brilhando tal qual um farol.

Um místico calor me envolvia
Abraçando a superfície de minha pele
Doce encanto no meu dia
Tingindo-me com pincelada leve.

(...)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Vai, minha pequena!!


(Em função da publicação do livro Poemas Místico-Filosóficos, pela Editora Biblioteca 24X7, este texto, assim como outros publicados neste blog, estará limitado a apenas uma introdução! Obrigado pelo apoio e incentivo, amigos leitores!!)

Vai, minha pequena!!

Minha Eterna Criança!!
Coração de Esperança!!
Que brinca e que dança!!
Nas cirandas da Vida!!

Saltita pelos mundos
Brinca com o universo
Faz das estrelas
Um bonito e brilhante adorno
A luzir por baixo de seus cabelos!
Ou quem sabe ainda
Um colar de pérolas
A enfeitar o seu pescoço!
A combinar com o seu olhar!
A fazer par com o seu sorriso!

Vai, minha pequena!!

O ingrediente do universo
Está em seu coração!!
Escuta-o, baixinho... bem baixinho...
Se possível prenda sua respiração:
Levante agora os seus olhinhos!!
Não é o mesmo ritmo
Do brilho das estrelas?
Respira fundo agora!!
Minha Eterna Criança!
Deixa a energia afluir!
Solte-se, liberte-se!
Voe na imaginação!

(...)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Vestibular


(Primeiro vestibular no campus USP - Butantã 1969)


Era o terceiro ano seguido.

- Não fica assim não, a vida é assim mesmo.

Pelo terceiro ano seguido seu nome não estava na lista. Alguns saltavam de alegria em sua volta. Perturbada, continuava a procurar seu nome, como se talvez, pela ansiedade do momento, ela o tivesse pulado. Não queria acreditar. Uma lágrima. - O terceiro ano seguido! - As mãos tremiam. Outros pulavam. Alguns gritavam. Abraçaram-na.

- Medicina é assim mesmo... Já ouvi falar de gente que prestou seis anos seguidos!

Meu Deus! Que vergonha! Mas ela não tinha tirado a nota? Talvez tenha passado alguma errada para o gabarito, quem sabe? Essas coisas são assim mesmo...

Saiu de lá direto para o metrô. Chorava. Dez horas por dia, todo santo dia! Havia adquirido até uma doença em função da pressão neurótica a que se submetera.

- Será que já não estava na hora dela tentar alguma outra coisa... Sei lá, é apenas uma sugestão.

Estava claro que o problema era com ela. Claríssimo! A escola de onde viera não era ruim, muito pelo contrário - dedicação também não a faltava. - Dez horas por dia! E a sua vida ia passando como se fossem estações - estações que não mudavam; estações que apenas se repetiam, se repetiam, se repetiam...

Nervosismo? Pare! Não queria pensar naquele momento. Mas se esse ano já foi assim, certamente o ano que vem seria muito, muito pior. As pessoas não sabiam nem como olhá-la, pois claramente via-se o peso da vergonha em seus olhos. Mais uma vez o Natal seria triste! - por causa dela. Por minha causa! Por minha causa.

- .........

As pessoas no vagão estavam todas silenciosas, o que fez seus soluços – contidos, abafados – ecoar, ao seu ver, por todo o vagão. Pare de chorar! Isso não irá melhorar em nada. Pare de chorar! Pare!Saiu do metrô. Andava agora pela avenida. Olhou para uma árvore de Natal: ela era grande, do tamanho dela, com grandes bolas espelhadas - vermelhas, azuis, verdes; tendo em si, também, um grande enfeite amarelo que se estendia enrolado por toda a árvore; e no topo, uma grande estrela. Como era bom o tempo em que bastava pedir e ser uma boa garotinha para se ter alguma coisa - às vezes nem boa precisava ser (um sorriso tímido!); mas agora o Natal seria novamente triste, artificial - as pessoas não saberiam como tratá-la, ela mesma não saberia como agir.

Subia o elevador. Pare de chorar! As apostilas espalhadas pelo seu quarto, entre seus bichinhos de pelúcia; resumos importantes colados na parede - por toda a parede. Parou em frente à porta.

- ....................................

Olhou-a, imóvel, temendo o choque direto com a realidade, com a fria e dura realidade. Por ela, estenderia aquele momento ao máximo possível. Tremia. Respirou fundo. Estava tensa, coitada!

- ......................................................................

As mãos suavam; enxugou o rosto; olhou a campainha; criou coragem; a luz se apagou. Voltou para acendê-la. A chave! Como não havia se lembrado? Pegou-a, pô-la na fechadura - com dificuldade -, girou-a, trêmula, e abriu de uma vez só.

Todos voltaram seus olhos para ela.

- ......................................................................
.........................................................................

Com a alma dilacerada, apenas pronunciou, com muita dificuldade, enquanto corria para os braços da mãe:

- Ah mãe, desculpa... desculpa...

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Assassinato nas Laranjeiras


"As crianças acham tudo em nada,
os homens não acham nada em tudo."
Giacomo Leopardi

Rua das Laranjeiras, 10 de Dezembro de 2003.

- Mãe, mãe – gritava o garoto assustado. – Vem ver o que eu achei.

- O que foooi, menino?

- Tem um homem morto lá no terreno baldio!

- Meu Deus! - E a mãe saiu toda apressada para a rua, que já estava toda cheia de gente.

- Você fica aí, moleque – dizia a mãe não sei por quê, enquanto cobria com um lenço seus cabelos cheios de bobes.

- O que aconteceu, moço? – perguntou uma velhinha de carrinho de feira.

- Facada!

- Ai, meu Deus! – exclamou a senhora pondo a mão no coração e fazendo três vezes o sinal da cruz.

A multidão já se impacientava esperando a polícia. Um outro menino resolveu levantar a folha de jornal, que cobria o dito cujo.

- Não Joãozinho! – disse a mãe puxando o garoto sem desgrudar os olhos do jornal.

O alvoroço só aumentava.

- Bem que eu ouvi uma briga ontem à noite – dizia um homem, ainda de pijamas, com o cabelo todo em pé. – Vocês não ouviram?

- Ouvi sim! Tanto é que eu comentei com meu marido.

- Teve até tiro pelo que soube!

- Não foi tiro não, foi garrafada.

- Garrafada?!

- É. Eu estava ontem no bar quando dois indivíduos começaram a brigar. Truco, sabe minha senhora... Dinheiro, pilantragem, bebedeira, quase sempre termina em discussão.

- Se isto é discussão, então minha mulher é uma santa! – exclamou rindo o moço do pijama.

- E meu casamento, um paraíso! – complementou um outro que foi logo repreendido pela mulher, sob a risada de vários marmanjos.

- Vamos respeitar o defunto, senhores – lembrou o padre que segurava uma Bíblia.

Finalmente chegava a polícia. Até que enfim! – festejava o povo, logo ficando apreensivo novamente.

- Vamos dando licença aí, pessoal. Isto aqui é trabalho para profissionais – ia explicando o gordo policial enquanto abria caminho pela multidão. – Por favor, isto aqui é muito forte: mães, levem seus filhos para casa, senhoras, se possível não vejam essa cena...

- Vamos filho, vamos – dizia mecanicamente a mãe apenas puxando a camiseta do filho, sem sair do lugar.

- Preparados? – bradou o policial.

- Siiim!!!

O policial já se preparava para levantar o jornal do defunto, com aquela cara séria e respeitosa, escondendo toda sua aflição, quando eis que o jornal se mexeu, assustando e tumultuando a todos.

- Meu Deus, Santa Maria, rogai por nós! – assustou-se a velha senhora tapando o rosto com as mãos.

- O que se passa por aqui? – perguntou o policial, perplexo, sem saber que ação tomar.

Os homens também estavam todos temerosos e nenhum se arriscava a pisar naquele terreno amaldiçoado. As mães mantinham-se estáticas, segurando seus filhos, alguns cheios de pavor, como se vissem com os próprios olhos o pior de seus pesadelos, outros plenamente fascinados, querendo a todo custo libertar-se dos braços maternos.

- Isto certamente está ocorrendo devido à falta de fé de nossa comunidade – afirmou o padre um tanto triunfante.

- Isso mesmo, o padre! Isso é um problema para o padre! – disseram todos em uníssono, carregando o padre até lá.

- Isso não é um problema para o padre – dizia o próprio tentando esquivar-se -, é um problema unicamente de vocês, que não têm fé, que vivem em pecado.

No entanto, como o padre sabia que não podia faltar à sua responsabilidade de autoridade espiritual do lugar, caminhou até o defunto, apertou a Bíblia com força, pediu proteção aos céus e... eis que um movimento mais brusco ocorreu, fazendo o padre saltar para trás, protegendo-se com seu crucifixo. E nessa posição digna de um quadro, o padre erguendo seu crucifixo e o povo todo aglomerado e apreensivo atrás, saiu por baixo do jornal um carrinho de controle-remoto, que, qual habilidoso jogador de futebol, costurou para lá e para cá todos os seus defensores, terminando por passar debaixo das pernas da inconformada senhora, escapando em gol pela rua afora! O gordo policial, retomando toda a sua macheza, indignado, encaminhou-se, firme e resoluto, até o defunto e levantou o jornal. Era um boneco, maltrapilho e sorridente, como se se divertisse com tudo aquilo. Por fim, a revolta explodiu na comunidade, alguns ficaram uma arara, outros se derramaram em lamentações, alguns ainda morreram de rir; mas o policial, todo categórico, afirmava que os culpados iriam pagar caro por tal brincadeira infame e desrespeitosa. Mas estes já estavam longe, gargalhando e relembrando a engraçada cena, preparando outras mil traquinagens.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Brincadeira de Criança


(Em função da publicação do livro Poemas Místico-Filosóficos, pela Editora Biblioteca 24X7, este texto, assim como outros publicados neste blog, estará limitado a apenas uma introdução! Obrigado pelo apoio e incentivo, amigos leitores!!)

"A beleza salvará o mundo."
O Idiota - F. Dostoiévski

Dizem que este Universo não passa de uma brincadeira de criança
Que com dedos frágeis e delicados
Pinta com tinta-guache as cores de todo mundo
Enquanto ri de maneira gostosa, encantado com sua obra.

No coração desta criança habita todas as coisas
Todas as cores e todas as formas
Mas é sobre o papel que ela desabrocha
O infinito botão, pai de todas as flores.

Em mil cores então nascem múltiplos desenhos
Que de tão belos até parecem perfumados
Curioso são os temas criados
Talvez impróprios para uma pequena criança.

No fundo de seus olhos aparece refletida toda a sua criação
Como se cada cena e cada paisagem
Morasse num ponto longínquo
Bem no fundo de seu coração.

(...)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Um estalo


(Em função da publicação do livro Poemas Místico-Filosóficos, pela Editora Biblioteca 24X7, este texto, assim como outros publicados neste blog, estará limitado a apenas uma introdução! Obrigado pelo apoio e incentivo, amigos leitores!!)

- Vamos ao supermercado com a gente, filhão? - perguntou sem muitas esperanças o pai para Diogo, aquele apoiado na batente da porta, este de costas jogando videogame.

- Vocês vão me comprar o jogo? - respondeu o garoto não desgrudando os olhos da tela, como que se justificando de antemão.

- Já dissemos para você que apenas no seu aniversário.

- Então no meu aniversário eu vou com vocês... – concluiu resoluto Diogo, abertamente inconformado com o pai por sua decisão, que ele chamava de “despótica”.

- Então, até daqui a pouco – disse o pai abandonando cabisbaixo o quarto e descendo a escada.

- Até.

Enquanto Diogo se concentrava no jogo, podia claramente ouvir bem abaixo de seu quarto sua mãe que falava para o marido: “Não falei para você. Não sei por que você tanto insiste. Mas um dia ele dará valor a tudo que tem, não tenha dúvida disso. Um dia...” E dizia de tal maneira e com tal tonalidade e volume de voz que, para Diogo, soava como uma verdadeira provocação, cujas palavras não tinham razão alguma para ter vindo à tona. Seu cenho franzido e sua cara emburrada exclamavam de si para si mesmos: “E não bastando tudo isso que me fazem, ainda querem que eu vá correndo para seus braços, quando deveriam ser eles a vir com o presente nas mãos!” Afinal de contas, ao ver de Diogo, ele dedicara-se o suficiente aos deveres escolares para ganhar o seu tão almejado jogo. O que fazia com que seus pais estivessem em dívida com ele, já que vira-e-mexe faziam promessas em troca de um bom rendimento escolar; coisa que, aliás, “esqueciam o tempo todo”.

Não deu nem cinco minutos da partida do pai escada abaixo, o filho já de todo esquecido do pai, da mãe, do mundo, é ouvido rua afora um surdo e seco estalo. E, de um instante para outro, tudo se apagou na casa.

(...)